Terça, 17 de Maio de 2022
Região de Carajás Ameaças

Profissão perigo? Prefeitos do interior do Pará estão, mais uma vez, em perigo?

Alexandre Siqueira, de Tucuruí, sofreu ameaças de morte. Macarrão, em Tailândia, quase foi assassinado em sua residência. Anos depois do assassinato de três prefeitos na Região do Lago, estariam gestores do interior do Pará de novo na mira do cangaço paraense?

18/01/2022 às 09h20 Atualizada em 18/01/2022 às 23h13
Por: Kleysykennyson Carneiro
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Alexandre Siqueira e Macarrão
Alexandre Siqueira e Macarrão

 

Linha do tempo

Em 24 de janeiro de 2016, João Gomes da Silva, o Russo, prefeito de Goianésia, saiu de sua casa para ir ao velório de um amigo. Ao chegar na localidade, o gestor foi assassinado brutalmente a tiros. Russo tinha 62 anos e morreu na hora.

Em 16 de maio de 2017, Diego Kolling, o Diego do Alemão, prefeito de Breu Branco, saiu de casa para pedalar como fazia todas as manhãs. Na PA-263, estrada que interliga Breu a Goianésia, Diego foi surpreendido por um criminoso que atirou contra o seu coração. O jovem prefeito de apenas 34 anos morreu.

Em 25 de julho de 2017, Jones William, prefeito de Tucuruí, vistoriava obras de recuperação de uma via do município. Por volta das 14h, quando o profissional que cuidava de sua segurança deixou o local para cumprir uma tarefa, dois homens se aproximaram em uma motocicleta. O garupa chamou Jones pelo nome, ele olhou e foi atingido por vários tiros. O prefeito tinha apenas 42 anos.

Em 14 de janeiro de 2022, circula nas redes sociais a informação de que o prefeito de Tucuruí, Alexandre Siqueira, sofreu tentativa de homicídio. O próprio Alexandre desmentiu os boatos, mas confirmou que foi ameaçado de morte por um homem que teria falsificado documentos para ganhar uma licitação. Alexandre tem 36 anos e é sucessor de Artur Brito (vice de Jones, filho de Josy Brito - apontada como principal suspeita de ser mandante do assassinato de Jones.)

Em 17 de janeiro de 2022, o prefeito de Tailândia, Paulo Jasper, o famoso Macarrão, sofreu uma tentativa de homicídio dentro de sua própria residência. Um homem que circulava sua casa já há alguns dias, entrou no local escondido, falou com Macarrão, que o atendeu e pediu que esperasse um pouco. Macarrão deu as costas para o suspeito, que sacou uma arma e quase atirou contra o prefeito de Tailândia, que tem 70 anos. Só não o matou, porque a Polícia Civil já havia sido acionada e um agente estava na casa do prefeito de plantão, trabalhando a paisana, e impediu o crime.

O município de Tailândia fica a 100 quilômetros de Goianésia e a 190 quilômetros de Breu Branco e Tucuruí. O criminoso está preso, foi identificado como Antônio Eli dos Santos, tem 29 anos e já vinha ameaçando Macarrão por áudios no Whatsapp. Na cadeia, Antônio alterna momentos de lucidez e loucura. Vai responder pelos crimes de tentativa de homicídio e porte ilegal de arma de fogo.

 

Profissão perigo?

A maioria dos crimes contra os prefeitos acima foram quase solucionados. Russo foi morto por Benedito Perez Campelo - que foi condenado a 32 anos de prisão pelo crime. O mandante do crime foi o vereador José Ernesto da Silva Branco , que pretendia ser candidato a prefeito nas Eleições de 2016 - o pleito aconteceria 9 meses depois do assassinato de Russo. No final das contas, José Ernesto morreu assassinado a tiros um mês depois de Russo - o crime não foi solucionado.

Vereador José Ernesto. Mandante do crime é assassinado um mês depois de Russo

 

Seis homens foram presos pelo assassinato de Diego do Alemão. O executor do assassinato, Antônio Genival, o Lelo do Batata, confessou o crime e afirmou, à época, que foi contratado para matar um "ladrão de baterias". Lelo afirmou que não sabia que a vítima era o prefeito de Breu Branco. Investigações deram conta de que o mandante do crime foi Ricardo José Pessanha Lauria, o Ricardo Chegado, que era amigo pessoal de Diego e presidente do Partido Social Democrático (PSD) de Breu.

O crime teria sido motivado por dinheiro. Ricardo almejava um contrato superfaturado na Prefeitura de Breu Branco, o que foi revogado por Diego. O prefeito, então, foi friamente assassinado. Ricardo passou cerca de três anos preso pelo crime, mas ainda não foi julgado. Em 2020, recebeu um Habeas Corpus e foi autorizado a responder por seus atos em liberdade. 

 

Jovem prefeito de Breu Branco assassinado

 

O caso Jones William é, talvez, o mais icônico entre os três assassinatos. O executor do prefeito logo foi identificado. Tratava-se de Bruno Venâncio, jovem pistoleiro da região, que já tinha no currículo a morte de um empresário em Itaituba. Frio, bárbaro e cruel, Venâncio matava por dinheiro e sequer cobria o rosto durante os atos. Era conhecido pela sua "eficiência" nos crimes que cometia: atirava até ter certeza que suas vítimas estavam mortas. Foi assim com o empresário Albenor Moura e foi assim com Jones. Bruno foi preso e meses depois foi morto dentro presídio, após uma rebelião.

Se o executor do crime logo foi identificado, preso e já está morto, os mandantes do crime ainda não pagaram pelo que fizeram. A principal acusada é Josenilde Brito, mãe de Artur Brito (vice de Jones). A mulher é empresária no município e teria ficado insatisfeita com a política de austeridade fiscal de Jones, que tentava, segundo informações, pôr as finanças do município em ordem. Josy se beneficiaria diretamente com a morte do prefeito, pois seu filho assumiria a gestão de Tucuruí e poderia favorecê-la em processos futuros.

Josy Brito e Jones

Artur era apontado, à época, como um dos melhores amigos de Jones, viajavam juntos e conviviam em paz. Ele era uma das figuras mais emocionadas no velório de Jones e a sua mãe, à época, dizia considerar o prefeito um filho, já que Artur o via como um irmão. Passados alguns meses, a trama sórdida veio à tona e Josy foi presa pelo crime, mas solta pouco tempo depois. O sucessor permaneceu no cargo, foi afastado algumas vezes, mas terminou o mandato.

Ano passado, populares liderados pelo irmão de Jones, Weber Galvão, protestaram contra a justiça, que cinco anos depois ainda não deu respostas à população.

Em todos esses casos, a ganância do homem em torno das finanças de municípios que são abastecidos por royalties da barragem de Tucuruí parece ser fator decisivo. Ainda não há informações sobre a motivação em torno do crime contra Macarrão, mas se for comprovado que o assassino não era mandado por alguém querendo mais dinheiro de prefeitura, o caso será uma exceção.

Via de regra, prefeitos causam indigestão em empresários e aventureiros quando tentam gerir finanças com punho de ferro, quando tentam fechar os cofres, auditar secretarias e exigir processos mais transparentes. Foi assim com Diego, foi assim com Jones e, de acordo com sua versão, Alexandre Siqueira está sendo ameaçado pela mesma coisa.

Prefeitos do interior do Pará estão ameaçados?

Estado rico, desigual e violento, o Pará reúne pessoas de todo o Brasil. Entre as mazelas sociais do estado, a disputa por terras, a dificuldade com policiamento, o baixo índice de elucidação de casos de homicídio e a pistolagem - herança secular que ainda vagueia nos confins do interior. Apesar do passar dos anos, o Pará ainda é terra fértil para o coronelismo, para a pistolagem e para homens com "complexo de Deus". 

Ao assumirem os cargos mais importantes de suas cidades, prefeitos quase sempre se colocam entre os interesses de pessoas que se consideram acima do bem e do mal. E é aí que mora o perigo. Ao tentar conduzir as finanças de um município para fugir de um círculo vicioso de miséria e eterna obsolescência das instituições, gestores podem desagradar cidadãos que sempre se consideraram donos da situação.

Talvez seja incorreto dizer que todos os prefeitos interioranos estão na corda bamba da vida, mas é possível afirmar que governar é se expor e é o dever solene de fazer escolhas que são boas para o município, mas nem sempre para si próprio.

 

 

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