Sexta, 19 de Agosto de 2022
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Feminista, eu?

05/01/2022 às 15h00
Por: Tay Marquioro Fonte:
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Feminista, eu?

Não sei quanto tempo eu dormi, mas hoje observar que tanta gente usa o termo “feminista” como xingamento é, no mínimo, bizarro.

- Sua feminista!

- Poxa, muito obrigada.

Graças ativismo feminista, eu posso usar calça, posso estudar, posso ter um emprego, ganhar meu dinheiro, sair sem pedir permissão ao pai ou marido, posso, inclusive, nem ter marido. É também graças ao feminismo que eu poderia ter filhos, abrir mão da vida profissional, me dedicar à casa, à família, ser dona de casa, se essa fosse a minha vontade. Olha só que louco!

Feminismo nunca foi o contrário de machismo. Nunca foi a sobreposição dos direitos da mulher aos interesses masculinos. Feminismo é sobre igualdade de direitos e oportunidades. É um conceito muito mais ligado à liberdade de poder escolher a vida que se quer levar, sem ser julgada por isso. É você poder decidir coisas básicas, como o que fazer com o próprio corpo ou escolher com quem vai se relacionar afetivamente. Você deve tudo isso ao feminismo, é um fato.

Mas tudo isso tem um viés de conquista apenas simbólica, já que nada parece ser o suficiente para reprimir a violência praticada contra nós. Só no ano de 2020, dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos registraram 105.671 denúncias de violência contra a mulher (o equivalente a um registro a cada cinco minutos). Pasme! 

Em um contexto mais atual ainda, apenas em março de 2021, o Superior Tribunal Federal (STF) considerou inconstitucional a tese da “legítima defesa da honra”. Esse era um termo muito utilizado em julgamentos de casos de violência contra a mulher e feminicídio e costumava ser acatado, resultando na absolvição ou redução de pena dos agressores. Trocando em miúdos, havia uma justificativa plausível para a morte de uma mulher, uma violência institucionalizada e legal. Como não ser feminista nesse cenário?

Eu poderia discorrer sobre esse assunto aqui em um texto homérico e cheio de nuances que fariam você repensar sua posição sociopolítica em relação aos direitos das mulheres. Mas me agarro ao simples raciocínio de que “esperança” é um substantivo feminino e, portanto, será meu sentimento para esse 2022 que se inicia. Esperança em um país mais justo, esperança nas próximas eleições, em mais mulheres em cargos políticos e de liderança, em mais mulheres LGBTs saindo da invisibilidade, mais pretas em espaços de poder... um desejo meio romântico, eu sei. Mas a gente precisa ter um horizonte, né? Esse é o meu.

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