Sexta, 03 de Dezembro de 2021
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Coluna | A ferida da diáspora negra tá aberta e sangra até hoje

Kleysykennyson: no Dia da Consciência Negra, é urgente olhar para o passado e para o presente para compreender que nem tudo mudou. Somos mal resolvidos com nossas mazelas

20/11/2021 às 00h00
Por: Kleysykennyson Carneiro
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Coluna | A ferida da diáspora negra tá aberta e sangra até hoje

Dia desses, enquanto tomava banho após brincar com amigos, Raul me fez a seguinte pergunta: "Pai, o senhor já foi 'zuado' pela sua cor?". Respondi que sim e já entendi logo o que ele queria me contar, ao fim. Ele e a Maria tinham passado o dia brincando com uma coleguinha de cor preta. Segundos depois ele confirmou: "Nossa amiga também. Na escola."

Aquilo foi doloroso. Lembrar que crianças sofrem por conta da cor da pele desde os primeiros anos da educação é algo que me desestrutura. Raul perguntou o que a amiga deveria ter respondido e eu expliquei para ele que ela deve sempre ter em mente que isso não é uma zuação; é racismo, é crime, e quem o comete merece ir para a cadeia. Mas nem sei se essa é a resposta correta. Lembro de quando fui "zuado" pela cor da minha pele, às vezes até dentro de casa. Eu não tinha as respostas quando era criança e nem as tenho agora, mesmo aos 30.

Não há respostas prontas para o racismo. É, dolorosamente, uma ferida que continua aberta e sangra todos os dias. A diáspora negra ainda existe e nos condena todos os dias a um destino que nos subjuga, que nos machuca e que sempre privilegia a branquitude do status quo em detrimento da gente preta.

No dia em que se celebra a "Consciência Negra", é preciso olhar para o nosso passado, para tudo o que fomos em nossos lastimosos séculos de escravidão e perceber, ao redor, que nem tudo mudou. Já se passaram 133 anos desde a tardia e anômala abolição da escravatura e quem é preto ainda precisa ser herói para sobreviver.

Não cabe a mim falar sobre números hoje. Todos sabem da abissal  diferença econômica entre os negros e brancos, bem como a pouca representatividade política, a esmagadora maioria da população carcerária, a evasão escolar e tantos outros fatores. O flagelo escravocrata sufoca até hoje a liberdade do povo negro. Somos mal resolvidos com todas as nossas mazelas, incluindo a estrutura racista brasileira.

No Dia da Consciência Negra, é sempre importante lembrar que a liberdade, de fato, não existe - ela ainda é capenga. O chicote, vez ou outra, ainda é brandido contra o lombo do preto e o carrasco (como dói dizer isso) é a própria sociedade brasileira, que não se resolve com suas tragédias, que não compreende que o mal ainda tá aqui e que pessoas  sofrem e morrem por serem negros.

Queria ter dito ao Raul que as coisas vão mudar, que o pai dele ou a amiga não serão zuados para sempre pela cor da pele, mas seria uma inverdade. Ele logo vai descobrir que mundo será sempre o carrasco com um chicote e a lembrança amarga de que as correntes ainda existem.

 

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