Sexta, 03 de Dezembro de 2021
Canaã dos Carajás Dor e recomeço

Mãe de menino espancado em Canaã diz que já perdoou agressores 'oro por eles toda noite'

Aos 11 anos de idade, João Vitor foi cruelmente espancado por adolescentes. Em entrevista ao Gazeta, mãe diz que está com medo, se sente perseguida e quer esclarecer os fatos 'Meu filho não estava vendendo lanche, tinha saído de casa para brincar e voltou todo machucado'

19/11/2021 às 11h22 Atualizada em 19/11/2021 às 12h57
Por: Gazeta Carajás
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Imagem ilustrativa
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No dia 3 de novembro de 2021, por volta das 19h40, o menino João Vitor, de apenas 11 anos, pediu a mãe para ir brincar com amigos. Sempre cuidadosa com o filho, sua mãe, Cláudia Sousa, não quis dar autorização para que ele fosse até o bairro vizinho para jogar bola. Única criança da casa, João insistiu para ir e acabou ganhando a permissão para ir. "Deixei ele ir, mas me arrependi quase no mesmo momento. Corri para dizer pra ele voltar, mas ele já tinha virado a esquina. Meu coração não queria que ele fosse" explica a mãe. 

O coração de Cláudia tinha razão. Meia hora depois, João apareceu em casa com o rosto ensanguentado, completamente machucado e aparentemente desorientado. Ao ser questionado, o garoto afirmou que tinha sofrido uma queda. Desconfiada, a mãe insistiu, foi até a quadra 41 do bairro Amec em Canaã, local para onde ele tinha ido brincar e, após ouvir testemunhas, constatou que o filho tinha sido vítima de uma covarde agressão. Adolescentes de 15 e 16 anos, por motivos ainda desconhecidos, foram para cima de João e o espancaram. O resultado: nariz quebrado, boca cortada e, mais tarde, o diagnóstico de dois dentes partidos.

A crueldade contra João Vitor comoveu Canaã dos Carajás. Todos os veículos de comunicação do município noticiaram o crime e muitos se dispuseram a ajudar a família, que até chegou a receber doações e visitas de funcionários da empresa Vale que se mostraram dispostos a ajudar. No entanto, passada a comoção, o caso esfriou e, 15 dias depois, muito pouco foi feito pela família. Os traumas, no entanto, continuam e a vida não voltou ao normal.

Procurada pelo Gazeta Carajás, Cláudia evitou falar sobre o assunto. Aparentemente, as marcas da agressão contra o filho foram além da pele - estão na alma. Alguns dias depois, no entanto, ela topou falar sobre a cólera pela qual o filho passou por um motivo: "Eu quero esclarecer os fatos. Ao contrário do que foi dito, meu filho não estava vendendo lanches aquele dia. Ele saiu para brincar. No passado, quando precisamos, sim, ele vendeu. Mas faz algum tempo isso."

Segundo Cláudia, o filho deixou de vender salgados no bairro Amec porque foi ameaçado por adolescentes. "Alguma coisa no João Vitor incomodava essas pessoas. Alguns diziam que incomoda o fato dele gritar 'olha o lanche, olha o lanche', mas não sei. Sim, ele foi ameaçado lá dentro do bairro da Amec, por isso não deixei mais ele ir. O meu marido está desempregado e eu tenho problemas de saúde, por isso ele vendeu isso por um tempo, mas nunca mais deixei e nem vou deixar."

Outro fato que Cláudia quer esclarecer é que ela e sua família jamais se aproveitaram da situação para pedir dinheiro, como alguns disseram. "Pediram meu pix, disseram que iam ajudar. Eu não pedi nada. Inclusive me orientaram a abrir uma conta em outra banco, pois a que eu tinha era do Bolsa Família. Não me aproveitei da situação."

A mãe conta que, ao ver o filho naquela situação, conseguiu segurar o choro. "Eu só chorei quando soube que ele tinha apanhado. Chorei muito ao pensar o que o meu filho sofreu. Hoje, estou quase entrando em depressão. A situação é bem difícil."

Questionada se recebeu ajuda, Cláudia afirma que sim. Muitas pessoas se solidarizaram com a situação da família, chegaram a garantir que construiriam um muro na casa e que providenciariam uma máquina para assar frangos. A ideia era dar uma oportunidade para que a família pudesse superar a grave crise financeira que passam. "Nós recebemos a visita de uma funcionária da Vale, que levou o João ao dentista e ainda garantiu que nos ajudariam. Mas dias depois, muito pouco foi feito. Você não tem a obrigação de prometer nada, mas quando você promete, precisa cumprir." Um detalhe importante de se ressaltar é que o dentista que atendeu João não detectou que dois dentes do garoto estavam quebrados.

A empresa Vale, por sinal, foi quem construiu todas as casas para abrigar funcionários de outras cidades que chegam a Canaã dos Carajás. A mineradora, inclusive, foi procurada pelo Gazeta e afirmou que não vai comentar o caso. No entanto, há rumores de que os pais dos agressores de João Vitor, que seriam profissionais da empresa, podem ser demitidos por conta da situação.

A família relata que tem medo da situação em que está. A mãe e o padrasto de João, o senhor Manoel, se sentem perseguidos. Em uma noite, relatam, dois homens se aproximaram da casa e a cercaram. Como a residência não tem muro, foi fácil. "Era por volta das 22h quando isso aconteceu, quando abri a janela, os dois correram. Não deu para ver quem era, mas pela sombra, vi que eram dois adultos homens" explica Manoel.

A mãe de João Vitor afirma que não conhece os pais dos jovens agressores, mas que esperou algum contato deles. "Eu queria ouvir eles, entender porque isso aconteceu. Mas eu já os perdoei, não guardo mágoas em meu coração e oro por eles todas as noites. Não desejo nenhum mal a eles."

Se por um lado o coração de Cláudia está mais leve pelo perdão concedido, por outro ela continua com o alerta ligado. Boletins de ocorrência relatando as agressões e as perseguições já foram feitos, mas até agora muito pouco foi feito nas investigações do caso - não há nada de concreto até o momento.

Questionada ao fim da entrevista, a mãe de João falou sobre o que diria aos agressores do filho se os visse. "Eu pediria a eles que não fizessem isso com mais ninguém. Não desejo a ninguém o que o meu filho passou."

Durante a entrevista, João ficou no quarto brincando. Ao fim, veio até a sala e cumprimentou a equipe com afeto. Menino de poucas palavras, João segue a vida, apesar do trauma que sofreu. As marcas no rosto ainda existem, mas já estão quase saradas e ele já faz tratamento odontológico na rede pública para os dentes quebrados, mas uma dúvida silenciosa que ainda paira no ar: o tempo será capaz de curar as feridas que existem na alma desta família?

 

(Imagem ilustrativa - mãe preferiu não divulgar fotos de João Vitor e da família)

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