Sexta, 03 de Dezembro de 2021
Especiais Fim do turismo?

Referências em turismo, cachoeiras e balneários serão fechados em Canaã dos Carajás

Áreas onde ficam o Balneário da Serra, Cachoeira do Goiano e tantas outras foram compradas pela Vale para criação de Parque Nacional e serão fechadas em breve. Cachoeiras atraem visitantes de toda a região e seus proprietários lamentam o fechamento ‘Gostaríamos de ficar, mas infelizmente não poderemos’

10/11/2021 às 20h44
Por: Gazeta Carajás
Compartilhe:
Referências em turismo, cachoeiras e balneários serão fechados em Canaã dos Carajás

 

“Infelizmente não poderemos ficar. Gostaríamos muito, pois tínhamos projetos para o verão. Mas nosso balneário está dentro do parque.”

A frase é da proprietária de um balneário localizado na região da Vila Jerusalém, zona rural de Canaã dos Carajás. Ela lamenta o fato de que a sua propriedade, local em que investiu dinheiro, tempo e sonhos, será fechado muito em breve. Tudo porque, como parte de condicionantes ambientais para a implantação do Projeto S11D, o Parque Nacional dos Campos Ferruginosos foi criado. Por conta disso, a Vale precisou desapropriar áreas na região e, para tanto, indenizou proprietários.

Ao todo, 25 grandes propriedades, de um total de 30, já foram desapropriadas e seus proprietários, indenizados. Quanto às pequenas propriedades, 97, de um total de 105, já foram desapropriadas; seus proprietários, também foram indenizados.

Para a criação de um parque com tamanha magnitude, o município vai precisar fazer sacrifícios. Um deles, é abrir mão de importantes centros de lazer, como a Cachoeira do Goiano e o Balneário da Serra. Uma alternativa à mineração, o turismo em Canaã é aquecido pelas cachoeiras e, também, pelos investimentos que seus proprietários têm feito nos últimos anos.

A Cachoeira do Goiano, por exemplo, atrai cerca de 300 visitantes todos os meses. Todos pagam pela entrada e consomem bebidas, comidas e muito mais, o que ajuda a movimentar a economia em Canaã. Obrigado a vender a sua terra, o proprietário da cachoeira, o senhor Rosivânio, acredita que vai precisar ir embora daqui “Eu gostaria muito de ficar, mas o valor que me pagaram não dá pra comprar outra terra na região de Canaã dos Carajás.”

 

O lugar é famoso em Canaã e é cada vez mais popular na região. “É muito triste ter que abandonar um lugar desses.”

Balneário da Serra

“Queira o bem”, “Respeite as diferenças”, “Fale com amor”, “Seja gentil”, “Não há wi-fi na floresta, mas você encontrará uma conexão muito melhor”.

As frases diversas trazem conforto e esperança a quem as lê. Dispostas em placas em meio à natureza, então, se tornam mantras para muita gente. A água gelada da cachoeira, a vegetação praticamente intocada pelo homem, sombra e comida de qualidade dão o tom de um ambiente onde os problemas podem ser esquecidos.

Esse é o Balneário da Serra, que recebe mais de 2 mil visitantes por mês. Turistas, estes, de Canaã dos Carajás, Xinguara, Parauapebas e muitas outras cidades da região. Os proprietários não pouparam investimentos na estrutura do espaço, que se tornou referência na região.

Isso, no entanto, deixará de existir e não estará mais aberto ao público. Ao que tudo indica, até o final deste ano os espaços de lazer estarão fechados.

 

Vale e ICMBio

O Gazeta Carajás procurou o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade, órgão que será responsável pela gestão do parque. Em nota, o ICMBio explicou que as cachoeiras, de fato, serão fechadas, mas ainda não há prazos definidos para isso.

A nota destaca ainda que, após fechadas, o acesso às cachoeiras sem a devida autorização do ICMBio será considerado crime ambiental e os responsáveis serão punidos com o rigor da lei. De acordo com o texto, o instituto pretende garantir o que chama de “turismo seguro”, que não ofereça riscos à natureza.

Confira a nota na íntegra:

O Parque Nacional dos Campos Ferruginosos foi criado em 2017, a partir de uma condicionante da licença de operação do Projeto S11D, empreendimento da Vale em Canaã dos Carajás.

Se trata de uma unidade de conservação de proteção integral, portanto não admite a presença de moradores. Logo, ICMBio e Vale firmaram um termo de cooperação técnica, onde a Vale atuaria como interveniente na desapropriação das áreas particulares para cessão ao ICMBio. 

Atualmente, a Vale realiza o processo de indenização dos moradores da região. Uma vez concluída a regularização fundiária, o ICMBio iniciará o levantamento, adequação e estruturação dos atrativos turísticos, visando a promoção do turismo seguro e compatível com a conservação da natureza, garantindo a melhor experiência aos visitantes. Durante esta etapa, os atrativos serão fechados ao público.

O processo de regularização fundiária segue em curso, e não há prazos definidos para o fechamento das cachoeiras. À medida que os moradores deixam as áreas indenizadas, o acesso será permitido apenas mediante autorização do ICMBio. Realizar visitação sem autorização constitui infração ambiental conforme o artigo 92 do Decreto 6.514/08.

 

A tristeza de ter que dizer adeus

Não importa o que o ICMBio e a Vale digam sobre o “turismo seguro”, Canaã dos Carajás vai precisar dizer adeus a cachoeiras e balneários. Aqui, apenas duas foram citadas, mas, na prática, todas não estarão mais  abertas ao público, o que preocupa.

Canaã ainda tem uma economia que depende da mineração. Com espaços de turismo fechados, o município fica enfraquecido nessa alternativa econômica. E como fica o senhor Rosivânio e outros tantos, que precisarão levantar acampamento e deixar a região que moram?

A certeza é uma só: se pudessem escolher, esses cidadãos de Canaã jamais deixariam suas casas, suas terras, seus investimentos, seus sonhos.

 

 

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias