Sexta, 03 de Dezembro de 2021
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Roubar comida quando se tem fome é crime ou legítima defesa?

14/10/2021 às 13h00
Por: Tay Marquioro
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Roubar comida quando se tem fome é crime ou legítima defesa?

No dia 29 de setembro, uma mulher foi presa em São Paulo ao furtar alimentos de um supermercado. E quando eu digo “alimentos”, não falo de um peru, alcaparras e vinho. O material furtado foi um refrigerante de 600 ml, dois pacotes de macarrão instantâneo e um suco de pacote. Na sua opinião, o que isso reflete?

A pandemia (e a falta políticas econômicas efetivas) agravou a situação de pobreza entre a população mais vulnerável por todo o país e até quem não está necessariamente abaixo da linha da pobreza está sentindo os efeitos disso. O valor da sua conta de energia, os preços do gás e dos combustíveis – que influencia no frete de tudo o que você pensa em comprar no supermercado – são os maiores exemplos disso. Real desvalorizado, desemprego em alta e crescimento da miséria são consequências dessa pouca ou nenhuma preocupação do governo brasileiro com a situação da população mais vulnerável e isso também precisa ser levado em consideração.

Coloque-se no lugar dessa mulher presa por furto. Mãe de solo de cinco filhos, com idades entre 2 e 16 anos que, naquela ocasião, não tinham o que comer. Uma mulher que provavelmente não teve acesso a programas governamentais de assistência, Auxílio Emergencial, cuidando de crianças que já tinham perdido até a chance de se alimentar na escola, com aulas presenciais suspensas, e se viu disposta a cometer um delito em nome de uma necessidade urgente, a fome.

Tudo bem se você não conseguir pensar sob essa perspectiva. Então comece com a sua realidade. Quando você vai ao mercado e percebe que um produto que costuma comprar aumentou de preço, quais alternativas você tem? Devolvê-lo à prateleira ou optar por uma marca similar mais barata, correto? Adaptar nossos gostos e nossas necessidades ao nosso orçamento é um hábito comum, sobretudo em uma crise que já se agravou tanto como essa. Mas e uma pessoa que não tem orçamento para isso, faz o que? Vai atrás de trabalho em um país onde empresas só demitem? Pede doações para uma população que também está vendo seu poder de compra cair? Que saídas uma pessoa assim encontra para matar a fome?

Não escrevo esse texto hoje para solucionar um problema que é de ordem social, não tenho essa pretensão. O que me incomoda nisso tudo são questões mais sensíveis: uma mulher foi presa por tentar alimentar cinco filhos furtando itens que somavam um valor um pouco maior que que R$20. Qual é a real origem do problema? Quem não faria o mesmo?

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