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Conexão Brasília-Washington-Jonestown

Coluna: Ao ver os zumbis terroristas quebrando tudo o que encontraram pela frente em Brasília, lembrei da bizarra e trágica saga de Jonestown – surtos coletivos estão conectados pela ignorância, crenças absurdas e enxurrada de falsas informações

09/01/2023 às 16h59
Por: Kleysykennyson Carneiro
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Conexão Brasília-Washington-Jonestown

Não há palavras que definam o que aconteceu ontem (9) em Brasília.

A marcha de uns 20 mil bolsonaristas rumo à Praça dos Três Poderes.

A inércia das forças de segurança.

As crenças absurdas fundamentadas nos vídeos do Kwai, TikTok e Whatsapp.

Talvez a expressão que mais se aproxime de uma explicação seja “surto coletivo”. Um transe, quase uma possessão demoníaca ou, como explica a ciência, uma dissonância cognitiva coletiva.

Mas a brutal e absurda tentativa de golpe à democracia não teve início no domingo. Na verdade, é bem difícil saber quando foi este começo.

Talvez quando o presidente Bolsonaro, mesmo eleito pelas urnas em 2018, afirmou que houve fraude - o pai da dissonância cognitiva: “eu ganhei, mas teve fraude” – e não apresentou provas. Ou quando Jair pressionou a Justiça Eleitoral pelo tal voto impresso, que na prática não fazia o menor sentido.

Talvez tenha começado muito antes. Em 2014, quando Aécio perdeu as eleições pra Dilma e não aceitou o resultado. A atitude culminou em um impeachment e trouxe à tona o que há de mais abjeto na política brasileira – o bolsonarismo.

Difícil dizer quando isso começou, difícil dizer se ontem foi o fim, mas sem dúvidas o quebra-quebra em Brasília foi o ápice do transe bolsonarista.

Os 20 mil pseudopatriotas pareciam uma horda de zumbis. Cegos pelas próprias crenças, convencidos do próprio heroísmo, convictos de que eram o bem que se levanta contra o mal. Eram homens e mulheres que pareciam estar fora de si. Em vez de cérebros, queriam um tal código-fonte – que nem sabem o que é, pois se soubessem saberiam que já foi entregue.

Esse movimento, no entanto, não surge ao acaso. Longe disso. O movimento bolsonarista tem lideranças poderosas, inteligentes, estrategistas, que seguem à risca a cartilha de Steve Bannon, um dos maiores ideólogos da extrema direita no mundo. Bannon é a figura central por trás dos ataques ao Capitólio em Washington no dia 6 de janeiro de 2021. Qualquer semelhança não é mera coincidência.

Os movimentos antidemocráticos do Brasil e dos Estados Unidos se sustentam com mentiras, com nacionalismo, com o uso indevido da religião, com maniqueísmo e com a lábia de gente que sabe aproveitar o que há de pior nas pessoas. Os estrategistas de Bannon sabem que mentes ignorantes absorvem ideias que as satisfazem.

Por exemplo, é mais fácil para a mente de um patriota brasileiro acreditar que todas as instituições estão erradas e que houve fraude nas urnas, do que aceitar que o seu candidato foi derrotado. É mais fácil para esta mente lutar pela derrocada democrática no agora do que esperar os quatro anos. E os estrategistas compreendem isso, compreendem quais tipos de mensagem devem ser enviadas: o exemplo é o tal código fonte, que foi citado em um relatório das Forças Armadas e que virou combustível para os zumbis terroristas de Brasília.

Mas Bannon não inventou isso. Ao longo da história, outros tantos canalhas se aproveitaram de mentes fracas e estúpidas para propagar suas mensagens e promover surtos coletivos. Enquanto os monstros destruíam as sedes dos poderes em Brasília, lembrei do pastor Jim Jones e sua Jonestown. Há 45 anos, quase mil cidadãos norte-americanos foram induzidos por ele a cometer suicídio de forma coletiva em sua seita, que funcionava em meio à Floresta Amazônica – mais especificamente na Guiana Francesa.

Mas houve sobreviventes. Eles relatam que as pessoas pareciam estar “em transe coletivo”. A maioria morreu tomando ponche de frutas com veneno.

Surtos coletivos repetem fórmulas e estão conectados pela ignorância, crenças absurdas e enxurrada de falsas informações. O caos interessa a seitas. O bolsonarismo é uma seita. Precisa ser investigada.

As invasões ao Capitólio e à sede dos Três Poderes em Brasília são os ponches de frutas envenenados das seitas trampistas e bolsonaristas.

A diferença é que, após promover tal surto coletivo, o pastor Jim Jones se matou junto com seus seguidores. Nos Estados Unidos e no Brasil, as duas figuras centrais das seitas não acompanharam seus súditos nos horrores promovidos.

Outra diferença é que o suicídio coletivo de Jim marcou o fim do movimento por razões óbvias. Nas duas seitas atuais, é flagrante que os ideais continuam e ainda devem fazer muito mal às suas democracias.

Cabe aos governantes de agora e do futuro estarem prontos para resistir às possessões demoníacas coletivas que ainda virão.

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Kleysykennyson Carneiro
Sobre o blog/coluna
Kleysykennyson Carneiro é jornalista e escritor.
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