Sábado, 26 de Novembro de 2022
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O Brasil está nas mãos de Luís Inácio (de novo)

12 anos atrás, Lula deixava a presidência com aprovação recorde. Agora, tem um país dividido, ressaca econômica, não há superciclo de commodities à vista e nem congresso favorável. O que o presidente eleito vai fazer para evitar um colapso?

31/10/2022 às 09h47 Atualizada em 06/11/2022 às 17h09
Por: Kleysykennyson Carneiro
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O Brasil está nas mãos de Luís Inácio (de novo)

“Há mais eleitores do PT, Horácio, do que pode se pode imaginar a sua vã filosofia.”

Ao ver o ex-presidente da república, Luís Inácio Lula da Silva, ser reeleito ontem por volta das 19h50, com quase 60 milhões de votos, a célebre frase de Hamlet me veio à mente. Como é possível? Por onde Bolsonaro andava, multidões o acompanhavam. Nas redes sociais, o presidente nadava de braçadas a frente de seus adversários políticos, surfava tranquilo num mar de popularidade. Comparado a Bolsonaro, Lula era um nanico das redes e isso era o comum desde 2018.

Como é possível?

Lula estava preso, fora do jogo, desidratado. O PT, cada dia menor, parecia caminhar para o ostracismo.

Na hora das urnas, no entanto, 60 milhões de pessoas escolheram Lula.

A verdade é uma só: Lula tem muito mais eleitores do que aparenta. Ontem, na Paulista, ficou claro isso. Uma multidão em vermelho, verde e amarelo esqueceu que hoje tinha expediente e foi pra rua comemorar o ressurgimento de Luís Inácio. E ele não decepcionou os seus: fez um longo e emocionado discurso e garantiu que o Brasil vai voltar a ser feliz.

Pessoalmente, duvido disso. Pelo menos a curto e médio prazo.

Há 12 anos, quando passou o bastão pra Dilma, Lula era aprovado por mais de 80% da população brasileira. Um número expressivo e histórico. No entanto, é preciso destacar alguns pontos cruciais para entender aquele Brasil.

O país vivia um superciclo de commodities, que estavam com os preços nas alturas. Craque em exportar matéria-prima bruta, o Brasil ganhou muito com isso, a economia cresceu, e Lula se saiu bem nessa história.

Entendendo que nada aquece mais uma economia do que o consumo das famílias, Lula fomentou a liberação de crédito. Assim, o pobre teve acesso a bens de consumo, como carros, motocicletas, geladeiras, etc.

Isso, claro, sem falar nas políticas de transferência de renda – inúmeras.

Mas o Brasil de hoje não é o Brasil de 2010. Pelo contrário.

Não há superciclo de commodities a vista. Em 2021, passada a pandemia, houve até a expectativa de que o preço das matérias-primas subiria.  Até subiu, mas não o bastante pra se chamar de “superciclo”.

As famílias estão endividadas, não conseguem ter acesso a crédito e nem a bens de consumo. O que é péssimo. 

O congresso é, em grande parte, bolsonarista. E isso é algo a se levar em conta, apesar da histórica habilidade de Lula para mediar conflitos e articular conjunturas. Há 12 anos, Lula tinha o apoio do legislativo, o que fez toda a diferença à época.

Outro fator que é preciso destacar é a ressaca econômica que vai pegar pela frente. O que fazer, por exemplo, para manter o preço da gasolina como está hoje? As manobras fiscais de Bolsonaro só valem até 31 de dezembro. E o que será depois?

Como manter o Auxílio-Brasil em R$ 600,00. De onde vai sair esse dinheiro?

E o que dizer da especulação do mercado. Na bolsa, as ações da Petrobras, por exemplo, amanheceram em queda. Apesar de ter liderado um dos governos mais capitalistas da história do Brasil, Lula não é bem quisto pelo mercado e isso é mais um problema a ser levado em conta.

Também é preciso destacar outra obviedade: o Brasil está divido demais. Bolsonaro tirou mais votos em 2022 do que há quatro anos; só perdeu mesmo porque Lula quebrou todos os recordes. Mas é flagrante que há outro Brasil com Bolsonaro, um Brasil antipetista, um Brasil que dormiu magoado com a vitória de Lula, um Brasil que será, ainda que a contragosto, governado por Lula. E como vão funcionar as políticas públicas para o outro Brasil que escolheu Bolsonaro presidente?

E sobre a educação, que foi claramente, onde Bolsonaro teve o pior desempenho nos últimos anos? Simone Tebet será, de fato, a escolhida? Ou Haddad?

Estou preocupado com o Brasil, confesso.

Preocupado, pois não há um plano claro para a economia nos próximos anos e essa rachadura entre o Brasil de cima e o de baixo assustam. Também preocupa os rumores de golpe, as sandices de que houve fraude e o escândalo dos inconformados.

Por outro lado, o fato de alguns aliados de primeira hora de Bolsonaro, como Tarcísio e Lira, reconhecerem a lisura do resultado das urnas traz alguma tranquilidade e esperança de que vai haver uma transição como deve ser feita.

O Brasil está nas mãos de Luís Inácio mais uma vez. O ex-presidiário, ex-metalúrgico, o líder de esquerda e, agora, presidente mais votado da história desse país.

Será necessária uma condução de país profissional por parte do presidente. Relações vão precisar ser retomadas, alianças precisam ser refeitas e diálogos precisam ser reconstruídos. A maior característica de um líder é a mediação de conflitos e Lula precisa mostrar agora porque é o primeiro a ser escolhido democraticamente três vezes presidente do Brasil.

Mas não se engane. Não haverá picanha tão cedo, nem conformismo nos próximos dias. Vai ser tijolo por tijolo.

Na dúvida, canja de galinha e uma oração nunca fez mal a ninguém.

 

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