Sexta, 19 de Agosto de 2022
Canaã dos Carajás Matéria Especial

EXCLUSIVO: Viúva de Português do Espetinho fala sobre assassinato que chocou Canaã dos Carajás

Pela primeira vez, viúva de Eurípedes Silva, o Português do Espetinho, fala a um veículo de imprensa sobre o assassinato do marido, as 12 facadas que levou e sobre o quase assassinato da filha de 13 anos. Defesa diz que não há motivos para Victor, o assassino, estar preso, mas mulher rebate: “Ele é um psicopata”. Confira relato na íntegra sobre o crime

03/08/2022 às 16h40 Atualizada em 10/08/2022 às 20h02
Por: Kleysykennyson Carneiro
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Eurípedes Enes e Antônia Josielda Enes
Eurípedes Enes e Antônia Josielda Enes

Canaã dos Carajás, 12 de junho de 2022.

O casal Eurípedes Silva Monteiro Enes e Antônia Josielda Carvalho Enes e os dois filhos pequenos se preparavam para dormir em sua residência. O clima era agradável, a rua era pacata e a vizinhança não podia ser melhor: vários familiares do casal, que havia desembarcado em Canaã, vindo de Portugal, no ano de 2016 e, desde então, tentavam vencer na vida com um pequeno restaurante na porta de casa.

A casa tinha passado por uma reforma recente e o casal estava feliz pela mais nova conquista. O quarto de Eurípedes e Antônia ficava na parte de cima da casa e ele queria aproveitar ao máximo esse detalhe. “Meu amor, no andar de cima é bastante arejado, dá até para dormir de janela aberta.”

E assim o casal fez. Por volta da 00h40, se deitaram na tranquilidade do lar após um dia cansativo. O dia seguinte não seria diferente. Haveria mais trabalho para o casal, por isso descansar era importante.

Por volta de 1h40 da manhã, o sono tranquilo de Antônia Josielda foi interrompido para sempre. Seu marido, Eurípedes, se debatia na cama e tentava se defender de violentas facadas. Ela se levantou e imediatamente reconheceu o agressor: era seu sobrinho Victor de Barros Almeida.

O jovem de 19 anos estava completamente nu e lutava para matar o próprio tio, que havia sido surpreendido em meio à inércia do sono. Pouco pôde fazer, levou as facadas, sangrou até a morte e jamais viu o sol nascer outra vez.

Victor não matou só o tio. Destruiu uma família inteira para sempre.

 

Antônia Josielda

Não foi fácil conseguir falar com Antônia Josielda, a viúva de Eurípedes, o famoso Português do Espetinho. No dia 12 de junho, escrevi a reportagem que tomou conta das páginas policiais de todo o Pará: o cruel assassinato de um europeu que residia em Canaã e que sempre me pareceu alguém pacato e trabalhador.

Desde então, sempre quis conversar com Antônia, mas não tive a oportunidade. A mulher ficou internada após levar 12 facadas do sobrinho Victor e quase morrer. Logo após, o jovem foi preso e encaminhado para o presídio e a história esfriou na cidade. Imaginei que Antônia e seus filhos jamais fossem querer conversar com um veículo de imprensa após o lamentável ocorrido.

No entanto, quase dois meses depois do assassinato de Eurípedes, tive a curiosidade de buscar informações oficiais sobre o caso. Visitei o site do Tribunal de Justiça do Pará e me deparei com algo que me pareceu absurdo como homem leigo e que não entende direito de leis, direitos e deveres.

A defesa de Victor de Barros Almeida pediu a revogação de sua prisão preventiva. No entanto, a juíza Kátia Tatiana Amorim de Sousa, Titular da Vara Criminal de Canaã dos Carajás, negou o pedido da defesa.

A magistrada alegou que a defesa não mostrou fatos novos sobre o caso e que o fato de Victor ter bons antecedentes, residência e emprego fixos, e bom comportamento não alteram em nada a violação de ordem pública que o jovem cometeu.

No entanto, de acordo com o relato da defesa, não há elementos que justifiquem a prisão preventiva de Victor, apesar dos crimes bárbaros que cometeu. Como todos sabem, o código penal não é matemática, nem sempre 2 e 2 são 4, e advogados são contratados para encontrar legalidades na lei que justifiquem os objetivos de seus clientes. Ou seja, a liberdade de Victor pode ter sido apenas adiada.

Victor de Barros Almeida

 

Foi aí que através de contatos consegui, enfim, o telefone de Antônia Josielda. Tentei ligar duas vezes, mas ela não atendeu. Falei pelo Whatsapp, e ela respondeu algumas horas depois. Me apresentei, falei que era do Gazeta Carajás, e pedia a ela que falasse sobre o crime brutal por qual passou. Achei que ela não fosse querer falar sobre o caso. É impossível imaginar a dor pela qual essa mulher passou; perdeu o marido, quase perdeu os filhos e a própria vida. Rememorar tudo isso, talvez, fosse muito para alguém que ainda tenta se reerguer dos escombros deixados pela tragédia.

Qual não foi minha surpresa quando ela topou falar à reportagem e afirmou que falaria sobre qualquer coisa que eu perguntasse. Ela relembrou o terror daquela madrugada de 12 de junho...

 

O relato

Após ver que era seu sobrinho que tentava matar o marido, ela gritou: “Victor, Victor! O que está fazendo aqui, o que está fazendo com a gente?” Questionada, Josielda não mediu palavras: “Foi o pior filme de terror que você possa imaginar. Isso nunca vai sair da minha cabeça.”

Quando a tia gritou para que Victor parasse, ele deu a volta na cama e partiu para cima dela. Ele deu socos, chutes e nada menos que 12 facadas na tia. Só não a matou por um motivo: o marido ainda estava vivo e tentou se reerguer para salvá-la.

Eurípedes, o Português do Espetinho, jorrava sangue e não teve forças para chegar até a mulher. No entanto, Victor, ao perceber que o tio estava vivo, deixou a tia sangrando no chão e correu para terminar de mata-lo. “Parecia que tinha uma torneira aberta jorrando sangue dele. Ele sentou no pé da cama parecia que estava sufocado.”

Foi nessa hora que Josielda conseguiu fugir do quarto e correr até o andar inferior para tentar pedir ajuda. “Eu já não sentia minhas pernas, sentia fraqueza, estava tudo turvo.”

No entanto, ao chegar lá, a mulher se deu conta de que as chaves da porta da frente estavam no quarto onde Victor matava seu marido. De forma astuta, conseguiu fugir por um janelão e gritar por socorro.

Nesse momento, os filhos do casal, uma menina de 13 anos e um garoto de 5 anos, já choraram e gritavam com medo. Victor partiu para cima da menina, que lutou contra o monstro que estava em sua frente. Só não a matou porque a faca ficou torta após ser cravada em uma peça de madeira, não sem antes acertar um golpe na própria prima.

Do lado de fora, Josielda gritou por ajuda. Foi nesse momento que Victor largou tudo o que estava fazendo e correu para fora da residência, completamente nu e pulou o muro para a casa ao lado, que era de familiares.

Antônia Josielda viu o vulto de Victor correndo para fugir da cena do crime. Foi então que, já quase desmaiada, subiu as escadas e foi até o quarto encontrar o marido. Eurípedes ainda estava com vida. “Tentei acalmá-lo, dizer que ele ia sair dessa, que íamos pedir socorro.”

“Amor, ele acabou com minha vida, não vou sair daqui vivo” disse o Português empapado de sangue em seus últimos suspiros de vida.

Ferida, assustada e machucada, Josielda foi até onde os filhos estavam e disse. “Filha, se a mãe e o pai morrerem, não abandona seu irmão, fica sempre do lado dele. Deus vai cuidar de vocês.”

“Não vi mais nada depois disso” explicou ela.

A menina de 13 anos, mesmo ferida, ligou para quem conhecia, quase ninguém atendeu. Exceto os vizinhos da frente da casa, que foram os primeiros a chegar à cena do crime e ajudaram a socorrer a família. O Português estava morto. Josielda em estado grave e as crianças com lembranças que jamais serão esquecidas.

 

Indignação

Josielda até então não sabia que a defesa havia pedido a liberdade do sobrinho. Questionada, ela disse que não acredita na versão de que Victor teve um surto psicótico. “Foi tudo premeditado, ele é um psicopata, muito frio e cruel. A gente via o jeito dele de ser, a maneira como ele se comportava. Ele só não matou todo mundo porque minha filha escondeu o irmão e porque ela lutou contra ele. Jamais vou acreditar nessa versão de surto psicótico.”

“É muita dor, é muita revolta. Ele destruiu a minha vida, a vida do meu marido.” Apesar de Victor ser sobrinho de sangue de Josielda, ela não esconde o desejo por justiça. “Minha família e eu queremos que ele apodreça na cadeia pelo que fez. O meu irmão é pai dele, mas ele precisa ser justo. Ele precisa saber que o que o Victor fez não tem perdão.”

“Um bicho daquele, um animal daquele não pode ficar solto. Se o Victor for solto, fica comprovado que não existe justiça no Brasil.”

Depois de todo o ocorrido, Josielda não esconde que as alegrias são poucas. Ela não consegue dormir. “Até hoje imagino aquele desgraçado me esfaqueando.” Por essa e por outras, a família está deixando Canaã dos Carajás e não revela o destino para onde vai com as crianças; por medo, por tristeza e pelo futuro dos filhos. “Estamos deixando tudo para trás, nossos sonhos, mas não dá para viver aqui.”

Confira na íntegra o relato de Josielda ao Gazeta Carajás abaixo:

 

Victor mandou mensagem para a tia pedindo desculpas após o ocorrido

Também conversei com a filha mais velha de Antônia Josielda. Carolina Souza, que tem 24 anos, diz que não perdoa o primo e quer justiça feita. “Nós não estamos preocupados com o pai e com a mãe dele, nós queremos que ele fique na cadeia, que pague pelo que fez. Meu pai está morto e ele não pode ficar solto.”

Sobre o pedido de liberdade do primo, Carolina é enfática. “A família não tem culpa do que o Victor fez, mas como alguém que fez tudo o que ele fez pode responder em liberdade? É inaceitável! Tenho nojo de ter o mesmo sangue dessa gente. Minha mãe está indo embora porque não teve apoio da família. Ele acabou com a vida dela e agora ser solto? Não tem cabimento.”

Carolina conta que o primo trocou mensagens após o crime com o irmão que mora em Portugal. Segundo ela, ele disse ao irmão que alguém tinha colocado algo em sua bebida e que, por conta disso, tinha feito “besteira, mas que não era ele.” Carolina não acredita na versão de surto psicótico. “Se fosse surto, drogas, qualquer coisa, ele teria feito a bobagem lá onde estava. Antes disso, ele foi na Umuarama pro festejo. Se fosse surto, não tinha ido pra casa, tirado a roupa pra não deixar sangue em objetos pessoais e pulado o muro da casa para matar meus pais. Foi tudo premeditado.”

De acordo com a jovem, o primo tinha um plano muito bem estabelecido. “Ele queria matar meus pais e meus irmãos.”

Após o crime, Victor, já em casa, mandou mensagens para a tia pedindo “desculpas” pelo que tinha feito, como se tivesse ocorrido apenas uma briga.

Carolina afirmou ainda que o seu pai jamais agrediu Victor, como algumas pessoas disseram. “E mesmo que tivesse agredido, nada justifica o que ele fez.” Segundo a jovem, em 2016, quando chegaram em Canaã, Victor ajudou a família na mudança e em determinado momento Eurípedes chamou a atenção do jovem que tinha, à época, 13 anos. “De fato, ele deu um tapinha nas costas do Victor. Mas nem força colocou, nada que justificasse. Depois disso, ele sempre visitou nossa casa, sempre conviveu com a gente. Se esse for o motivo, está mais do que comprovado o quão psicopata, frio e calculista ele é.”

Carolina Souza finaliza dizendo que o primo acabou com tudo e o que resta à família é apenas a justiça.

 

O que diz a defesa de Victor?

Victor de Barros Almeida é representado pelos advogados Raphael Ferreira Lima e Alex Rodrigues Silveira. Conversei com os juristas para entender mais sobre o caso da morte do assassinato de Eurípedes.

Questionada, a defesa afirmou que até hoje Victor não confessou às autoridades o crime, apesar de não restar dúvidas da autoria. “Não houve confissão, como ele está sendo acusado do crime de homicídio do próprio tio, e da tentativa de homicídio contra a tia e prima, nosso cliente prontamente se apresentou na delegacia de Polícia Civil de Canaã dos Carajás - PA, prestou os esclarecimentos devidos e retornou para sua casa, sendo que, no dia seguinte após sua apresentação espontânea foi expedido ordem de prisão preventiva em seu desfavor.”

A defesa também foi questionada sobre as razões que levaram Victor a cometer tal atrocidade. “O Victor é um rapaz que nunca foi preso, nunca foi processado, nunca se envolveu em confusão. Trabalhador, mas que, nos parece, que tem uma enfermidade mental, pois no dia dos fatos teve um surto psicótico agudo que tirou dele qualquer lucidez referente ao ocorrido. Então fica muito difícil para ele mesmo analisar o que ocorreu, pois nem mesmo ele se lembra do ocorrido. Sem acreditar que ele possa ter feito algo contra pessoas do seu convívio.”

Busquei entender as razões que motivaram a defesa a pedir a revogação da prisão de Victor. A defesa acredita que Victor não traz qualquer perigo à sociedade e nunca trouxe. “O que ele precisa é de um acompanhamento médico e não de ficar preso. O pedido de revogação da prisão preventiva é direito de qualquer acusado de cometer um ato ilícito, a prisão preventiva somente se justifica quando há possibilidade de o acusado interferir de alguma forma nas investigações ou levar risco a ordem pública. O acusado se apresentou espontaneamente na delegacia, não ouve tentativa de fuga, quando expedida a ordem de prisão preventiva, sendo o mesmo encontrado em sua residência não oferecendo qualquer resistência à prisão. Não há elementos nesta fase processual que justifique a manutenção da prisão, o acusado é réu primário, possui residência fixa e estava trabalhando com carteira assinada. Desta forma, conforme a legislação vigente, tem o direito de responder em liberdade.”

Conforme explicado no início da reportagem, o pedido de liberdade foi negado pela juíza, mas a defesa vai recorrer da decisão. “Já estamos preparando um recurso para tentar a liberdade do cliente.”

Até o fim desta reportagem, Victor de Barros Almeida segue preso na Cadeia Pública de Parauapebas.

 

Reportagem: Kleysykennyson Carneiro

Agradecimentos: Antônia Josielda, Carolina Souza e dr. Alex Silveira

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