Terça, 17 de Maio de 2022
Opinião Opinião

OPINIÃO: Quem poderá impedir uma guerra em Novo Repartimento?

Cidade vive dias tensos após morte de três jovens em terras indígenas. População pede índios fora de Repartimento - o que não vai acontecer. De quem é a responsabilidade neste caso?

02/05/2022 às 11h10 Atualizada em 03/05/2022 às 12h10
Por: Kleysykennyson Carneiro
Compartilhe:
OPINIÃO: Quem poderá impedir uma guerra em Novo Repartimento?

No dia 24 de abril de 2022, três jovens - Cosmo, William e José Luís - deixaram suas casas para uma caçada em terras indígenas no município de Novo Repartimento. Após isso, sumiram e nunca mais foram vistos com vida.

Seis dias depois, no sábado 30 de abril, seus corpos foram encontrados em uma cova rasa. Os três estavam com as mãos e os pés amarrados, juntos, havia sinais de tortura e, segundo familiares, há a suspeita de que tenham sido enterrados vivos. Uma cruel, lastimável, covarde e imperdoável execução. Indígenas que habitam aquelas terras se tornaram, naturalmente, os principais suspeitos pelo crime.

Ninguém sabe ao certo o que de fato aconteceu na semana em que as vítimas ficaram sumidas na mata. A teoria que predomina é que seus algozes tenham os cercado em uma emboscada. É provável que tenham se rendido, talvez tenham sido torturados e há uma chance, sim, de que tenham sido enterrados vivos.

Antes de mais nada, é preciso esclarecer alguns pontos por uma questão de justiça. A caça e a pesca são proibidas em território Parakanã, localidade escolhida para a caçada. Na verdade, a mera entrada no local sem autorização é proibida. Todos sabem disso. Crianças crescem sabendo disso. Os três sabiam e ainda assim entraram no local. Sim, os três foram mortos, são vítimas e nada pode mudar isso, mas é importante ressaltar que não há inocentes nessa história.

Ainda assim, apesar de tudo, nada - ABSOLUTAMENTE NADA - justifica os atos contra os três jovens. Seus algozes pouco têm de humanidade em si; são assassinos cruéis e covardes. Merecem punições severas e suas atitudes, na minha visão, são imperdoáveis.

Diante disso, em Novo Repartimento o clima é de absoluta tensão. A população está revoltada com o crime e culpa todos os indígenas pelo crime. Estão exigindo, inclusive, que os Parakanãs deixem Repartimento, o que é, claro, um absurdo inconstitucional. Ninguém tem o poder de expulsar ninguém de suas terras.

Há rumores em bastidores de que famílias de Repartimento se preparam para uma caça às bruxas aos indígenas. Sim, se fala em massacres contra os Parakanãs, derramamento de sangue, justiçamento na bala, caso autoridades não tomem providência sobre o caso. E quem vai impedir essa guerra que se desenha no horizonte? Quem tem o poder de ser racional e exigir racionalidade em um caso tão delicado?

Até hoje, Novo Repartimento, que é um município gigantesco em extensão territorial, sofre com a lei seca da bala. Há famílias antigas que se consideram donas do lugar - e do mundo - que determinam o que acontece naquelas terras. Quem vive, quem morre, quem ganha, quem perde, quem pode ficar rico, quem não pode... Estranho pensar que o coronelismo ainda está vivo, mas quem é dessa região sabe a verdade.

Apesar de esforços para se afastar desta imagem e da nítida evolução nos últimos anos, Novo Repartimento ainda é considerada uma cidade "inflamada", "remosa", perigosa. Longe do centro urbano, então, a pistolagem ainda dá o tom da conversa. Na iminência de um conflito, tudo isso precisa ser levado em conta.

Cabe ao governo federal destacar forças de segurança para Repartimento. Os TRÊS assassinatos precisam ser elucidados. A Polícia Federal precisa mobilizar equipes e promover uma investigação nunca antes vista na história desta região e encontrar os culpados. Tão certo quanto a soma de dois e dois, não se pode culpar toda uma etnia pelos crimes. Há culpados (no plural) e estes deverão ser punidos.

No entanto, apesar de tudo, a população vai precisar de racionalidade para compreender que é preciso respeitar o processo. Não cabe às pessoas a tarefa de juiz, júri e executor. Vai ser preciso esperar para que a justiça federal seja feita.

E, ainda que alguns dos indígenas sejam confirmados como culpados, a população vai precisar encontrar uma maneira de coexistir com o restante da aldeia - o resto que não teve envolvimento algum com a morte dos jovens. Os índios não vão embora de suas casas, a história conta isso. Desde 1500 tentam expulsar índios de suas terras e há resistência por parte deles. Não se pode impor aos indígenas o ostracismo social. Todos sabem disso.

O certo é que um massacre contra índios trará os olhos do mundo para a Amazônia e, mais uma vez, estaremos no centro de um debate negativo.

A situação em Novo Repartimento é de interesse do povo brasileiro. Mais do que nunca, somos um e vamos precisar de forças para nos recuperar do flagelo em torno desta tragédia.

Uma guerra, um massacre, uma limpeza étnica não fará bem a ninguém. Não se faz justiça com justiçamento.

* O conteúdo de cada comentário é de responsabilidade de quem realizá-lo. Nos reservamos ao direito de reprovar ou eliminar comentários em desacordo com o propósito do site ou que contenham palavras ofensivas.
500 caracteres restantes.
Comentar
Mostrar mais comentários
Ele1 - Criar site de notícias